quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
"O ESTILO É O HOMEM"
Por duas razões busco assunto hoje na FOLHA de SÃO PAUL0. No PAINEL DO LEITOR a expressão latina "ad nutum" , usual no campo do direito, aparece traduzida para o vernáculo como " ao menor sinal". "Nutus" = aceno de cabeça, sinal, do verbo "annuere" (ou nuere) = fazer sinal afirmativo com a cabeça, consentir, aprovar, favorecer. Assim, nomear alguém ad nutum significa indicar alguém a um cargo ou função por vontade própria, permanecendo o nomeado vinculado apenas à vontade de quem o nomeou. Este pode demiti-lo quando racionalmente bem lhe aprouver. "Ad nutum", portanto, a meu ver é a indicação de uma pessoa por autoridade competente com o direito de demiti-la, quando julgar oportuno. A tradução "ao menor sinal" põe a ênfase na maneira simplificada pela qual ocorre o afastamento, ato da vontade de quem nomeou, sem que se faça referência à maneira como foi realizado o ato de nomeação. Nomear "ad nutum" é uma exceção aos princípios legais exigidos no caso de nomeações em geral. Por outro lado, e já agora referindo-me à coluna de Carlos Heitor Cony, apraz-me contar-lhe que, nos meus longínquos 14 anos, estudando na "Arte da Composição e do Estilo", de autoria do então diretor do Colégio do Caraça, Padre Antônio da Cruz, a parte referente especificamente ao Estilo, decorei e nunca mais esqueci o trecho referente a este assunto: "Otimamente, pois, se expressou BUFFON, quando disse que "o estilo é o homem, porque exige do homem a aplicação de todas as suas faculdades". Vou ao Petit Larousse: BUFFON (Georges-Louis Leclerc de) (1707-1788) e leio: "Le style est l`homme même (et NON le style c`est l`homme) signifie que si le fonds des découvertes scientifiques devient la propriété commune de l`humanité, la mani`ere`de les exprimer, le style, reste la marque personnelle de 1` écrivain.( Et NON que dans le style se refl`ete le caract`ere de l'ecrivain.) Lamento não dispor do discurso famoso de recepção de Buffon na Academia, para se desfazer agora em mim o mistério do conceito de estilo atribuído a Buffon e que ele recusa, conforme está no Larousse.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
A SEGUNDA MORTE DO LATIM
Deu na FOLHA DE SÃO PAULO de hoje, 12/01/11: "Agora o novo delegado-geral de São Paulo comete o desatino de matar uma língua morta ao proibir o latim nos boletins de ocorrência". Pena que não se mencionou a causa da proibição, o que me leva a imaginar uma porção de suposições. Aguardemos, contudo, demos tempo ao tempo, até que a coisa se esclareça. Enquanto esperamos, lembro que a bandeira do Estado de São Paulo, proposta em 16/07/1888 por Júlio Ribeiro, logo depois da abolição da escravatura, foi adotada como símbolo dos paulistas às vésperas do Movimento Constitucionalista de 1932. Durante o Estado Novo, obra de Getúlio Vargas, seu uso foi suspenso, uma vez que se suprimiram no país os símbolos nacionais. Com o retorno do estado de direito, a bandeira de São Paulo foi oficializada em 27/11/1946. Existe também a bandeira da capital de São Paulo que traz uma CRUZ deitada e o brasão da cidade. É branca, com a CRUZ de Cristo em vermelho e o brasão do município no centro. A CRUZ evoca a fundação da cidade. Foi instituída por Janio Quadros, em 06/03/1987. Janio, autor de uma gramática da língua pátria, determinou que nela figurasse uma frase em latim: "DUCO, NÃO DUCOR", o que quer dizer: "CONDUZO, NÃO SOU CONDUZIDO". É toda branca. A frase, dizem, teve a felicidade de demonstrar que a capital não apenas ocupa a posição central, mas também a liderança do Estado. Como ignoro a razão da suspensão do latim nos boletins de ocorrência, pensei com meus botões: está-se discutindo muito sobre o emprego de símbolos religiosos nos próprios públicos. Irão em breve atacar a CRUZ na bandeira do Estado de São Paulo e a frase grandiloquente do Janio na bandeira da Capital do Estado, escrita em LATIM? Lembrem-se de que 25 de janeiro vem aí! Data de fundação da capital do Estado e que traz - et pour cause - o nome nada mais nada menos do que o do Apóstolo das Gentes, SÃO PAULO APÓSTOLO. Se o Latim desaparecesse, com ele desapareceria a língua que tem como lindo lema dado por Piccinello em seu Mundo Simbólico: "PROMIT INTIMA CORDIS", a saber: " Expõe, declara, as coisas íntimas do coração". Esqueceu-se o que escreveu Camões nos Lusíadas, canto I, v.33: "...E na língua na qual, quando imagina, com pouca corrupção crê que é LATINA"?
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
PACIENTE OU CLIENTE?
Despertou-me hoje,e bastante, a atencão o mini-diálogo mantido entre um médico e uma senhora numa clínica de fisioterapia. Ela não se conformava com o adjetivo "cliente" com que o médico se referia a ela. Teimava em dizer que ela não era cliente e, sim, paciente. Acabou aceitando a explicação dada: hoje não se diz mais "paciente", mas "cliente". Confesso: nunca li ou ouvi algo a respeito do assunto. Pensando bem, o termo "cliente", "na Roma antiga o indivíduo que estava sob a proteção de um patrono, modernamente designa a pessoa que confia seus interesses a um advogado ou que consulta habitualmente o mesmo médico, conforme se lê no dicionário de Houaiss, focalizando a palavra "cliente", onde nem alusão se faz à palavra "paciente". Por outro lado, o mesmo dicionário dá ao termo "paciente" o significado de "indivíduo que está sob cuidados médicos" EM OITAVO LUGAR na relação dos sentidos em que a palavra pode ser empregada. Procede assim até, quem sabe, no afã de atender à curiosidade ou necessidade de alguém que se veja diante dessa palavra num contexto em que ela se apresente no sentido antigo, de alguém sob cuidados médicos. É interessante observar que a língua francesa, salvo melhor juízo, só conhece o termo "cliente", o mesmo acontecendo com o italiano e o inglês, quando se referem a pessoa sob cuidados médicos. Claro que têm outros sinônimos, mas não com o sentido do nosso termo "paciente", do latim "pati"+ sofrer. O antigo uso do termo "paciente" no sentido de alguém sob cuidados médicos, etc., certamente sofreu influência do latim e de nossa gramática portuguesa, onde, tratando-se de verbos, fala-se em voz ativa e voz passiva: ativa, quando o sujeito pratica a ação, e passiva, quando o sujeito sofre, recebe o efeito da ação. Na filosofia, lembra Houaiss, na "escolástica" paciente é o ente que sofre uma ação em estado de inércia, por oposição a "agente". Como se vê, o emprego de "paciente" designando uma pessoa sob cuidados médicos, por exemplo, tomado no sentido etimológico da palavra em boa hora foi e é substituído pelo termo "cliente". Para Houaiss "client" é possivelmente de origem etrusca", chegando à nossa língua através do latim.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
APENAS UM MEIO DE PROTESTAR?
São 3 os sacramentos da Igreja que imprimem CARÁTER: o BATISMO, a CONFIRMAÇÃO e a ORDEM. A Igreja ensina que o caráter sacramental é um sinal distintivo, espiritual e indelével, impresso na alma, razão pela qual os 3 sacramentos referidos não podem ser repetidos. Todos os fieis assinalados com qualquer um desses 3 caracteres participam de alguma forma do sacerdócio de Cristo: pelo caráter batismal e pelo da Confirmação os fiéis são introduzidos no culto divino, como servos e soldados de Cristo. Mas a participação propriamente dita se realiza pelo caráter da ordem, em virtude do poder de se tornar ministro e dispensador dos mistérios de Deus pela configuração com Cristo Sacerdos et Pontifex. Consiste o caráter num poder espiritual pelo qual a pessoa recebe ou leva aos outros aquelas benesses que pertencem ao culto divino. Ora Cristo , como sacerdote, é o autor desse nosso culto, derivando todo poder espiritual em ordem ao culto divino do sacerdócio de Cristo que é por natureza indelével. Estou recordando estas verdades, por ter ouvido domingo, dia 09/01/11, o celebrante da eucaristia nos transmitir a notícia de que na Europa se tornou comum atualmente cristãos procurarem as igrejas paroquiais, solicitando sejam apagadas dos livros do registro competente as inscrições de seus nomes em decorrência de terem naquela igreja recebido o sacramento do batismo, uma vez que não querem mais ser cristãos, pertencerem à Igreja Católica. Esquecidas estão simplesmente de que tendo sido validamente batizadas, o sacramento lhes imprimiu na alma aquele sinal distintivo, espiritual, invisível mas real, que os fez cristãos. Que lhes apagou a falta original e todas as outras por ventura cometidas antes do batismo. Que lhes deu o poder de entrarem no reino dos céus terrestre, a Igreja Católica , em vista do Reino dos céus celeste, a conquistar pela utilização da graça batismal. Pelo batismo o cristão é introduzido na vida sobrenatural, cujo princípio é a graça , graça fundamental que qualifica a alma cristã para sua própria destinação, munindo-a para a viagem ao mesmo tempo que lhe abre o caminho.. O batismo incorpora o cristão a Cristo, f'á-lo revestir o Cristo, segundo a metáfora forte de São Paulo. Ser incorporado a Cristo é fazer parte daquilo que chamamos o seu Corpo Místico ou Espiritual, isto é, a Igreja. Uma vez batizados, batizados para sempre. Uma vez confirmados, confirmados para sempre. Uma vez sacerdotes, sacerdotes para sempre. Sendo assim, solicitar deixar de ser cristão pela simples supressão do nome que comprova ter sido batizado confirma o que tanto se lamenta: a profunda ignorância da doutrina cristã!
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
EVANGELHOS
No PRESÉPIO, no Natal, a VERDADE se faz sorriso, para nos conquistar! Na CRUZ, na Quaresma, a VERDADE se faz SANGUE, para nos resgatar! Na HÓSTIA, a Verdade se faz pão, todos os dias do ano, todas as horas do dia, para nos alimentar! No EVANGELHO Jesus se faz LUZ para nos INSTRUIR! NO EVANGELHO está a perfeita fisionomia de Cristo, por Ele mesmo fotografada. Todos dizemos que conhecemos o Evangelho, um livrinho de que se lêem na celebração eucarística algumas páginas aos domingos. Coisa curiosa: o que impede de aprendê-lo, lendo-o, é porque julgamos conhecê-lo! Quantas vezes citamos pensamentos, palavras de homens importantes, mas nos esquecemos das palavras de Deus! Quantos nos deliciamos, nos enriquecemos diante da leituras de biografias - o que pessoalmente julgo uma fonte de aprendizado humano, de melhor conhecermos nossos semelhantes, de nos valorizarmos mutuamente - e no entanto nosso Evangelho muitas vezes continua uma peça de enfeite em nosso lar! O Papa São Pio X dizia que quanto mais lermos e conhecermos o Evangelho, meditando, tanto mais viva se torna a nossa fé. Léon Bloy, que costumo citar tanto, escreveu: "Que delicia a leitura do Evangelho, mesmo na mais profunda das angústias! Quantas vezes senti que minha pior penitência era não poder consagrar a seu estudo todos os meus dias! "O que há de mais admirável no Evangelho é que ele convém a todas as pessoas, aos grandes e aos pequenos, aos sábios como aos ignorantes. A todos e a cada um se adapta. Voltaire: "Conjuro todo pai de família a preparar uma posteridade que conheça o Evangelho, que considere as grandes verdades transmitidas por esse sublime livro e as grave no coração de seus filhos!". São Jerônimo (331-420), a quem se deve a tradução da Bíblia para o Latim, chamada Vulgata, escreveu que "ignorar o Evangelho é ignorar Jesus Cristo!" EVANGELHO, do latim EVANGELIUM, do grego EUANGUELION, quer dizer uma boa, uma alegre mensagem ou notícia. Embora nos primeiros tempos da Igreja vários homens tenham procurado escrever sobre Cristo e suas doutrinas, a Igreja só reconheceu como autênticos e canônicos os Evangelhos de São Mateus, São Marcos, São Lucas e São João Evangelista.
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
VELHO NÃO GOSTA DE CONSELHO
Narra o evangelista São Lucas (16.1a9) que um homem rico tinha um administrador de seus bens que foi um dia acusado de dissipá-los. Convocando-o, exigiu-lhe prestasse contas de sua função. Detestando o trabalho, com vergonha de mendigar, que fez o administrador para, perdendo o emprego, poder ser recebido nas casas de seus amigos? Reuniu os devedores de seu patrão e foi diminuindo a dívida de cada um. Sabedor do expediente inventado pelo espertinho, o patrão louvou-lhe a prudente atitude, concluindo que os filhos das trevas são mais prudentes que os filhos da luz. Mais inventivos, acrescento, conforme constatei no primeiro dia deste ano. Voltava eu tranquilo e feliz de uma visita ao cemitério São João Batista, meio-dia mais ou menos, caminhando pela rua Dona Mariana, duas quadras antes da São Clemente, quando vejo aproximar-se de mim, em sentido contrário, um rapaz moreno, de uns 2o anos, alto, de bermuda, e que ao passar por mim se detém e sem mais me avisa, apontando, que existe algo estranho na minha cabeça. Como sou agradecido aos amigos do além! Instintivamente liberto as mãos que trazia enlaçadas nas costas e sem nada dizer prossigo a caminhada, não sem, segundos depois, observar se o peregrino prosseguia seu destino. Logo passa por mim um senhor de uns trinta a quem peço me dizer o que há na minha cabeça. Sem me olhar, prossegue em frente, imitando exatamente meu procedimento de há pouco. Assustado, arrependido por ter desprezado o conselho de meu filho, lembrando o deserto das ruas do bairro em dias feriados, apertava os passos para afinal desvendar o misterioso objeto sobre minha cabeça. Podendo ter sido um presente de algum pássaro, não via o momento de em casa diante de uma torneira olhar-me no espelho. Investigando, tentando descobrir a intenção daquele gentil cidadão carioca, meu filho foi logo direto no óbvio. Pai, não se anda em dias como estes, fim e começo de ano, nas ruas desertas de Botafogo, sozinho, idoso como é, não se pode confiar, não, pai! Aquele cara queria saber se o senhor tinha relógio. Se levantasse o braço, dominava-o e adeus relógio, se o tivesse, e como o senhor não anda com ele, talvez o final da história fosse pior!
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
REPUBLICANO
De vez em quando a memória levanta-me, lá do mais profundo do baú dos meus guardados, uma ou outra palavra ou expressão exilada do linguajar atual, numa gentil tentativa de me consolar dos meus mais de 80 anos corridos, pois pensa-se que só jovens têm boa memória. Lingua Pátria! Antes, muito antes, da partida de nossos bravos Pracinhas para na EUROPA dar um susto nos alemães e italianos nazistas e facistas, nas duas escolas que frequentei na minha terra mineira, livros didáticos, salvo " lapsus memoriae", desconheciam, se lhes chegasse ao conhecimento, o que seria "Língua Portuguesa"! O nome que constava nos livros que manuseávamos e nos cadernos do "prá casa" era "Língua Pátria", de uma suavidade feminina no pronunciar, num pesado e amedrontador contraste com o som de "Língua Portuguesa". Alfabetizar, alfabetização não me lembro se ouvi estes sons alguma vez. Ouvi, sim, "Aprender o Beabá". Outrora, no meu tempo, o que hoje se chama "análise sintática" era tida e havida e detestada "análise lógica". Até o nosso país de então mudou de nome: chamava-se "República dos Estados Unidos do Brazil". E por aí vai! Corre hoje nos currais políticos e com bastante ênfase, basta esforçar-se algum membro dos poderes do Estado tentar defender-se de alguma falcatrua, o emprego do adjetivo "republicano" atrelado a algum substantivo indicador do modo de agir com a coisa pública, para se tentar coonestar a maneira de lidar com valores sagrados da pátria nem sempre por ele amada. Será que tais embusteiros julgam que algum brasileiro cai tão infantilmente na onda? Surpreendi-me, há um mês, ouvindo em Petrópolis um sacerdote, fazendo a homilia, empregar o advérbio "direitamente" na expressão "proceder direitamente" (do adjetivo direito = correto). Parabéns!
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